Sexta-feira, 3 de Julho de 2009

Um olhar


São coisas que se tornam difíceis de fazer: encontrar alguém com um detalhe bem fora do comum, que faça vir ao de cima a nossa cobiça de caçadores de imagens, e ter a capacidade de conseguir fazer essa imagem com o consentimento do retratado.
E é tão mais difícil quanto mais desconhecida for a pessoa.

Pois eu, lá no Jardim da Estrela, gozando da excentricidade do estar ali, aliada ao meu aspecto igualmente menos comum, de barbas cabelo já quase brancos e de tamanho pouco comum, consigo-o com relativa facilidade.
Um sorriso, um piropo polido e alimentador do ego e aí estamos, com a câmara atestada sobre uns olhos lindos e, ainda por cima, consentidamente.
Mas posso garantir que tudo depende da presença da câmara e da função. Que a mesma pessoa, com a mesma pilosidade e o mesmo linguajar, algures na cidade e sem o artefacto visível, e mais que consigo é um olhar de indiferença, senão mesmo insultuoso.


Texto e imagem: by me

Quinta-feira, 2 de Julho de 2009

Insólitos Oldfashion


Atrás deste simpático casal e desta vetusta câmara fica uma aprazível zona de sombra, fornecida por uma frondosa árvore, onde esteve por mais de uma hora um carro patrulha da PSP, fugindo assim ao sol abrasador que hoje se fez sentir.
Ambos os agentes, um homem e uma mulher, são meus conhecidos desde o início das minhas idas regulares ao Jardim da Estrela e são elementos do programa “Escola Segura”. Ambos simpáticos e agradáveis no trato. Em havendo possibilidade, de parte a parte, damos um pouco à língua.
Pois estávamos, ele e eu, à conversa junto ao carro, quando surge uma avó. Pelo menos tinha idade para isso. E uma energia de movimentos que explicava a agilidade com que abordou o carro patrulha. Mas com uma mentalidade que parecia ser bem mais antiga que a idade que aparentava. Algures bem atrás, em meados do século passado.
Vinha ela queixar-se que na relva, naquela zona aqui meio escondida e ao sol atrás das árvores, estavam duas raparigas deitadas, uma em cima da outra, aos beijos na boca e outros maneios.
Pelo que me foi dado ver, pois que ouvi a queixa, não havia um centímetro de pele visível a mais que o que se espera ver em gente daquela idade e com o calor deste dia. Aliás, tinham mais pele tapada que muitas dondocas, algumas da idade da queixosa, quando vão a festas muito in, muito jet-set.
Pois a avozinha queixava-se que aquilo era uma pouca-vergonha, que não havia direito nenhum, como iria explicar aquilo às suas netas que estavam a ver…
A agente que estava no carro, a tratar de papelada, lá se levantou e, com bastante calma, foi falar com as mocinhas em questão. Esteve uns minutos por lá, numa conversa que àquela distância me pareceu afável, e regressou com um sorriso na cara. Enquanto que as garotas, que não teriam mais que 15 ou 16 anos, se juntavam a amigas que por ali estavam.
Ficou a conversa sobre a homossexualidade e a sua liberdade, bem como se a avozinha teria apresentado queixa se se tratassem de um rapaz e uma rapariga. O que, aliás, é comum ali ver, como em muitos outros jardins por este mundo fora.
Desta história o que retiro é que, apesar de estar extinta há muito a polícia de costumes, que fiscalizava o bom comportamento moral dos portugueses, basta haver uma queixa sobre um eventual atentado à moral pública e as forças de segurança actuam. Ainda que a moral em causa seja a de uma avozinha que, a bem da população e da paz social, não deveria ser autorizada a sair de casa para que não pudesse incomodar os demais cidadãos. A bem da liberdade de pensamento e de acção!

Agora, contada a história, podem perguntar o que esta imagem tem a ver com o relatado.
Com toda a certeza que não estavam à espera que eu fotografasse, e menos ainda que exibisse, os intervenientes no sucedido. Não apenas não o autorizariam como seria uma intromissão da minha parte.
Mas esta fotografia foi feita uma meia hora depois do contado, por um passante e a pedido, e é tão surpreendente como o atrás descrito.
Quem esperará ver, em pleno coração de Lisboa, Portugal, uma estudante Tailandesa? Menos ainda que se queira fazer fotografar por uma caixa de madeira com objectiva. E muito menos que queira ficar com uma outra imagem, desta feita junto com o fotógrafo. E eu, aproveitando o ensejo do passante, quis fazer uma com a câmara de bolso, que por acaso até anda no meu cinto. Esta!
Duas situações insólitas em meia hora e sem sair do meu lugar, entre o portão e o coreto.



Texto: by me
Imagem: by um estranho

Tântrico


Heuuuuh.... Vamos?


Quarta-feira, 1 de Julho de 2009

Até ao próximo episódio


Já o tenho dito vezes sem conta: cada fotografia tem uma história e uma estória.
E um bom fotógrafo consegue contá-las sem mais que com a fotografia.
Talvez porque não o seja eu, é frequênte as minhas fotografias ficarem aquém das estórias em torno delas.
E neste projecto, com quase três anos e mais de oitocentas fotografias feitas, algumas estórias acabam por, no geral, repetirem-se. Com pequenas diferenças nas abordagens, nas poses e reacções ao que recebem, para já não falar na questão do preço, mais de metade das que faço em cada dia de jardim da Estrela acabam por ser rotineiras na sua variedade.
Algumas há, no entanto, que primam por serem diferentes de todas as outras. Quer seja por aquilo que se constata na fotografia, quer seja pelas conversas tidas antes ou depois dela, quer seja pela empatia criada entre os dois lados da caixa de madeira.
Esta fotografia é, certamente, merecedora de pertencer a um álbum de selecção porque consegue, creio eu, retratar com razoável fidelidade as estórias que a antecederam e sucederam, bem como as pontes que se criaram entre os quatro intervenientes: os retratados, o retratista e a maquina de retratos.
Foi um privilégio tê-la feito e, como me foi dito em contra-ponto ao meu costumeiro “Divirtam-se!”:
“Até ao próximo episódio!”


Texto e imagem: by me

Terça-feira, 30 de Junho de 2009

On photography - A portrait


Slightly out of focus. So what?
No vertical or horizontal lines. So what?
The eyes not pointing to the lens. So what?
Overexposed hair. So what?
Why should everybody’s world be measured by our own?
And how can I photograph a world unknown to me?
I’m proud of this portrait!


Texto e imagem: by me

Just for the fun of the light - double portrait


Por vezes, mais importante que a opinião dos fotografados é a preferência do photógrapho. Ou não fossem eles todos excêntricos! Eu incluído, claro!

By me

It would be an obscenity...


... to do a picture about this subject!

Quando eu era pequeno havia o Caderno Diário!
Aquele conjunto de folhas, pautadas, quadriculadas ou lisas, onde íamos tomando notas do que ouvíamos o professor dizer, onde íamos fazendo os exercícios “sugeridos” pelo professor, onde copiávamos o que ía acontecendo no quadro preto.
Esse Caderno Diário era, em regra, um dossier, de argolas ou fita metálica, onde íamos colocando folhas virgens à medida que íamos necessitando. A certa altura do meu percurso estudantil, deixei de ter um caderno por disciplina mas antes um dossier de maiores dimensões onde, intercaladas por separadores coloridos, estavam os cadernos de cada uma das matérias.
A razão de ser deste Caderno Diário era, descobri-o mais tarde e tarde demais, para poder estudar pelos apontamentos tomados e exercícios feitos, um complemento aos livros e um repositório dos conhecimentos cedidos pelos professores, únicos e irrepetíveis.
Claro que, enquanto estudante e antes de perceber qual a sua real função, o Caderno Diário era bem mais que apenas onde ficavam as contas, as cópias, os ditados: era também um instrumento de tortura ou controle. O professor, em qualquer momento e sem aviso prévio, poderia declarar que aquele dia era de inspecção aos Cadernos Diários. E aí tremíamos todos, pois ai daquele que não o tivesse em dia, com os sumários registados e por ordem, apontamentos sem rasuras ou que tivesse desenhos ou “bocas à-parte” escritas nas margens. Para já não falar na obrigatoriedade de a letra ser legível para todos, o que sempre foi um problema para mim.
E tremíamos porque difícil seria encontrar um caderno que não tivesse uma página dedicada aos desenhos e outros “mata-tédio” das aulas enfadonhas. Eram, as mais das vezes, a última página do caderno, se fosse um dossier, ou a do meio, junto aos agrafos, se fosse esse o caso. Eram as mais fáceis de arrancar e escamotear em dia de inspecção.
Hoje vejo, na rua e na sala de aula, jovens com cadernos mal-amanhados e mal-tratados, cujo destino inexorável será, quando esgotados, uma pilha em casa e inconsultavel. Quando não lixo! E não mais servirão de base a estudo ou de criação de método e organização. Nem poderão ser inspeccionados, garantidamente!
Mas constato pior e em idades mais tenras:
De acordo com uma notícia lida um destes dias, um grupo de professores afirma que o “Magalhães”, essa solução última para melhorar o rendimento escolar das crianças, pouco mais será que uma ferramenta lúdica se não tiver programas de funcionamento em rede. E, com isto, querem eles dizer um sistema que permita ao professor verificar, em qualquer momento, o que o aluno está a fazer com o seu computador. Tal como permite aos pais fazer o mesmo.
Isto assusta-me!
Estes professores estão a defender a vigilância permanente do jovem. Deixando de parte a possibilidade de este assumir os seus actos, ao não saber se está ou não a ser vigiado. O livre arbítrio, o assumir as responsabilidades, o enfrentar o professor ou educador ou dar a cara pelos seus actos faz parte da formação de qualquer jovem. O medo permanente da vigilância ignorada é, em última análise, algo equivalente às polícias secretas que escutam conversas e interceptam correspondências. Isto logo desde tenra idade.
Mais que preparar a criança com competências e saberes necessários ao seu futuro, este sistema irá prepará-lo para ter medo da vigilância permanente e do policiamento omnipresente.
Estes professores, supostamente responsáveis e em lugares de responsabilidade, estão com esta proposta a preparar futuras ovelhas obedientes no redil de uma sociedade de informação onde a privacidade inexistente impera. E a preparar igualmente o terreno para uma “polícia do pensamento”, como Orwell imaginou.
Consigo imaginar diversos adjectivos para classificar esta proposta, mas qualquer um deles é passível de ser censurado por obsceno. O mesmo nível de obscenidade desta ideia.


Texto e imagem: by me

Segunda-feira, 29 de Junho de 2009

Já!


Quanto tempo é já?

I don't like money!


Não, não gosto de dinheiro!
Começando pelo simples facto de, ele mesmo, ser coisa alguma. Não é mais que um símbolo, representando os valores que atribuímos ao que temos ou produzimos. O dinheiro é uma ilusão! Uma mera equivalência!
Segue-se que cada um de nós não possui o dinheiro que trás na carteira ou bolso. É propriedade do banco emissor e qualquer tentativa de danificar ou destruir notas ou moedas é punível por lei. O dinheiro que supostamente ganhamos não nos pertence!
Claro que também há que considerar que o dinheiro que não possuímos e que é uma ilusão está mal distribuído. Pessoas há que, por o terem em abundância, comem para além da saciedade, deitando fora os restos e sobras, enquanto que outros, à míngua de o terem, comem aquém do básico, e dos detritos dos outros. Não se dispor de dinheiro implica fome e sofrimento.
Acrescente-se que tudo, ou quase, se faz por dinheiro ou com o fito de o obter. Actos gratuitos, sem terem por objectivo a obtenção de dinheiro, aquilo que não nos pertence, que é uma ilusão e que provoca sofrimento, é olhado com desconfiança, por vezes mesmo com medo. O bastante para ser, frequentemente recusado, por insólito, porque fora da normalidade, vá-se lá saber o que é “normalidade”! O dinheiro, origem de sofrimento, ilusão e fugidio, é também um atestado de credibilidade.
Curiosamente, veja-se a crise mundial recente e constate-se como tudo o que acima dito corresponde a ela!

Pois tenho para mim que o dinheiro, não sendo “O” mal da sociedade, é certamente um deles e que estaríamos bem melhor se ele não existisse ou mesmo se nunca tivesse sido inventado.
Cada um deveria exercer a sua actividade, na medida dos seus saberes e capacidades e ter, sem ser em troca mas naturalmente, o resultado das actividades dos restantes elementos da sociedade. Sem dinheiro pelo caminho, que significasse coisa alguma, sem provocar sofrimento e sem testemunhos de credibilidade. Cada um vale o que vale por si mesmo e não devido a uma qualquer certificado volátil.
É assim que penso e que procuro agir, na medida em que a sociedade em que estou inserido o permite. E se tenho que ter um emprego que me permita comer, vestir, abrigar e alimentar, em parte, o espírito, procuro que parte dos meus actos sejam coerentes com os meus ideais. É o caso da fotografia!
Faço questão de com ela não fazer negócio, de dela não obter dinheiro em troca. Fotografo se e quando quero e, no caso de mo pedirem, não cobro nem apresento contas. Na melhor das hipóteses, espero e sugiro que quem fica com as imagens que produzo tenha comportamentos equivalentes, usando dos seus saberes e competências em beneficio da comunidade e sem esperar obter nada em troca.
Conseguir que tal suceda será o meu lucro, real e palpável, verdadeiro certificado das qualidades de quem o faz, provocando prazer no lugar de sofrimento. Com a “vantagem” de não ser colectável em impostos!
Recentemente pediram-me para fotografar uma família que, indo a um evento de circunstância, gostaria de ficar com recordações do momento e dos trajes usados. Claro que o fiz, para prazer mútuo. O problema virá, em breve, na aceitação por parte deles que não há dinheiro envolvido e que das fotografias já entregues gostaria apenas de vir a saber que algo de equivalente da parte deles foi feito a terceiros.
É que, sabem, eu não gosto mesmo de dinheiro!


Texto e imagem: by me