terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

Not!




Just for the fun (or not)


Pentax K1 mkII, Tamron SP 90 1:2,5

By me

domingo, 1 de fevereiro de 2026

Modernices




“Pouco importa o que já fizeste se não te importares com o que ainda podes que fazer.”

 

Eu tenho uma pequena colecção de aparelhos de medida de luz.

Não gosto de lhes chamar de “fotómetros”, já que nem todos me apresentam resultados em “footcandle”. Alguns mostram-me “lux”, outros em Kelvin, outros ainda nem uma coisa nem outra, mas tão só os valores de exposição. Aliás, tenho mesmo um que não possui ponteiros nem célula e que é inerte, dependendo de uma mica graduada e da acuidade visual do utilizador.

Recentes ou bem antigos, incidente, reflectida, de largo ou estreito ângulo, continua ou instantânea, balanço e correcção de cor… tenho de quase tudo. Faltar-me-á um espectómetro, mas não tenho nem necessidade imediata nem meios para o comprar. Claro que nem aqui considero os sistemas de medição integrados nas câmaras.

Aquilo que ainda não tinha usado era a câmara de um telemóvel para aquilatar quantidade de luz. Surgiu agora a necessidade.

Uma conhecida recebeu e recuperou uma vetusta e ilustre câmara. Tudo agora funcional, excepto o “fotómetro” que, como seria de esperar, “morreu” de velho.

Lá lhe indiquei as velhas tabelas impressas no interior das embalagens de cartão em que se vendem os rolos fotográficos e que dão indicações preciosas, ainda que pouco precisas, sobre os ajustes de exposição em função das condições atmosféricas e mais uns trocos.

(É interessante verificar como é raro encontrar alguém que saiba que existia algo impresso no interior dessas embalagens. E, a maioria dos poucos que sabem, nunca o leram ou ponderaram as informações lá contidas. Um pouco como com os manuais de instruções.)

Pois para a ajudar, que a compra de um “fotómetro” está, para já, fora dos planos dessa minha conhecida, sugeri algo de forma errada: algo nunca tinha usado.

Refiro-me a aplicações para telemóvel que medem a luz e nos dão indicações sobre como ajustar a exposição: sensibilidade, tempo, abertura, EV…

Sendo que não gosto de ter pontos de interrogação suspensos sobre a cabeça, mas antes exclamação ou reticências, tratei de ver o que se encontra on-line.

São mais do que esperava. Alguns usam a câmara como sensor, outros um dispositivo adicional. Optei por experimentar um da primeira opção.

Numa primeira abordagem, gostei dos resultados. Comparado com as indicações dadas por duas câmaras e três aparelhos de medida externos, pareceu-me dar resultados medianamente consistentes e fiáveis.

Criei agora o desafio pessoal de usar este método e fotografar com a minha DSLR para tirar as teimas de modo prático.

 

Duas notas, no entanto:

- Independentemente dos resultados que obtiver, não creio que medir luz com um telemóvel dê o mesmo prazer ou afecto que com um fotómetro ou exposímetro;

- Não irei juntar um telemóvel à minha colecção de aparelhos de medida de luz.


By me

sábado, 31 de janeiro de 2026

Com F ou com PH



Primeiro

A coisa começou há muitos anos! Éramos – e eu os compinchas de várias andanças, incluindo a procura de perguntas e respostas – razoavelmente novos.

O caminho que então percorríamos juntos passava também pela fotografia. Partilhávamos os equipamentos, as técnicas, as estéticas os conhecimentos e descobertas que íamos fazendo. E, não sendo nenhum de nós génios, procurávamos também os livros e revistas onde pudéssemos ir beber em mestres o suficiente para os nossos passos.

Estávamos na década, melhor, no decénio de 70, inícios do de 80 e por cá, Portugal, pouca leitura havia em português sobre a matéria. Livros apenas alguns mais antigos, ao estilo de almanaques, e revistas só aquelas efémeras, cuja qualidade e pouca procura faziam morrer pouco depois de nascer.

A solução era, inexoravelmente, recorrer ao que vinha de fora, do Reino Unido, dos EUA, de França. Cada uma destas origens, então como agora, tinha abordagens diferentes às técnicas e estéticas e às soluções. E o hábito de ler, apreciar e mesmo falar ia-se atendo às línguas que praticávamos fotograficamente.

Claro que também contava, face à juventude que tínhamos, o prazer de usar um código semi-hermético aos circundantes, aqueles que não bebiam onde nós nos alimentávamos: o prazer de fazer imagens.

E criou-se a brincadeira, petulante é certo, de dizer que por cá se fazia “Fotografia” e que lá por fora se praticava “Photographia”.

Com o passar dos tempos e as variações de rumos das vidas de cada um, tudo isto se transformou ou diluiu. A literatura e os periódicos em língua portuguesa foram aparecendo, algumas por nós mesmos produzidas, muitas vindas de além-mar. E deixamos de parte a necessidade juvenil da afirmação por códigos e mistérios.

Mas a sensação da diferença entre “fotografia” e “Photographia” ficou. Já não agarrada à tradicional maledicência sobre tudo o que é português, mas antes para marcar alguma diferença no tipo de imagens produzidas, onde quer que fosse. Diferença esta que não está nas técnicas, nas estéticas ou nas temáticas. Constata-se em cada uma delas e no seu conjunto mas não reside aí.

Está, antes sim, na forma de pensar e de fazer fotografia.

Segundo

A representação pictórica, ou iconográfica, existe desde antes da escrita, com esta tem co-existido e, pela certa, a ela sobreviverá. Porque os códigos alfabéticos, fonéticos, ideográficos ou binários mudam com as civilizações e tecnologias, o que não sucede com o uso das belas-artes. Poderão estas mudar de estilos ou de interpretações, mas perduram.

O comum do ser humano, gregário que é mas igualmente desejoso de marcar a diferença na sociedade em que se insere, procura igualar ou suplantar aqueles que admira e a quem atribui qualidades superiores. Entre outros, os que bem se expressam, seja qual for a arte em causa. E a pintura e representação gráfica é uma delas. Mas ela não é tão simples como parece, já que, além do domínio das técnicas, implica um certo “fogo interior” que na maioria está apagado. Para já não falar na morosidade do processo.

Ao invés, a fotografia é quase imediata, por comparação. E é-o tanto mais quanto as técnicas usadas evoluem. Técnicas estas que, com um domínio não muito aprofundado, permitem obter resultados satisfatórios, não apenas perante a sensibilidade de quem as produz como a aceitação de quem as vê. E os automatismos contemporâneos ainda reforçam este facilitismo no fazer da fotografia.

Se a isto juntarmos o consumismo desenfreado que vamos vivendo e a necessidade de afirmação social mais pela posse de bens que pelo resultado daquilo que se é e se pensa, temos que meio mundo possui e utiliza câmaras fotográficas. E que o outro meio anseia por o ter e fazer.

Mas esta fotografia é feita a correr, oriunda em impulsos de momento, quase que por obrigação. As questões estéticas são ignoradas, dos factores de comunicação nem se desconfia, e com a mesma velocidade com que dispara o obturador, também o seu resultado é esquecido. Tão ou mais grave que isso, a fotografia contemporânea padece da efemeridade, já que o seu apagar ou destruir resulta do uso de uma ou duas teclas na sequencia de sistemas de armazenamento cheios. A mesma ausência de pensar no acto fotográfico conduz a uma ausência de importância no seu resultado. Conservar ou não uma fotografia é uma questão de apetite momentâneo. E já não se usam pastas de arquivo cuidadosamente arrumadas, caixas de sapatos empilhadas ou gavetas repletas de papéis mono ou multi-coloridos que, volte e meia eram remexidos e supostamente organizados.

Some-se a esta pouca importância dada ao pensar a fotografia o seu actual custo zero. Fazer uma fotografia ou dez consecutivas tem o mesmo preço e dá o mesmo trabalho em obter. Que o “rolo” já não chega ao fim e as memórias dos cartões são cada vez maiores.

Nos tempos que correm, a velha frase publicitária “Para mais tarde recordar” deixou de fazer sentido, face ao uso e importância que é dada à fotografia.

Terceiro

Alguns há, no entanto, que assim não procedem.

Ao olharem pelo visor da câmara, ou ainda antes disso, o seu objectivo é o registo permanente daquele jogo de luz e sombras, daquela perspectiva, o contar daquela história, o eternizar daquele momento. E que, em tendo oportunidade para tal, procuram melhorar as suas capacidades de o fazerem, tanto pela prática como pelo estudo de quem o faz ou fez ainda melhor. Em que a afirmação pela fotografia não passa pela competição com os restantes com base no resultado ou na exibição da factura do seu equipamento mas antes consigo mesmo e com o resultado obtido a cada imagem produzida.

E que sabem que esse processo começa com o olhar o assunto e termina com olhar sobre o produto acabado, sendo que tudo o resto que medeia entre um e outro são meras técnicas, mais ou menos dominadas. Na tomada de vista e na selecção e tratamento posterior.

Que sabem e praticam que uma fotografia é o resultado de um processo mental materializado pela técnica. E que é mais naquele que se preocupam que nesta.

Ao resultado dos trabalhos destes, chamo eu (e mais uns quantos não tão poucos quanto isso) “Photographia”. Para o trabalho dos demais fica o termo genérico de “Fotografia”. Alguns há, ainda, que diferenciam com o uso de maiúsculas e minúsculas, mas o significado é o mesmo.

Nenhum dos dois termos tem mais valor que o outro ou algum deles tem uma carga negativa. Porque, na vida, o que importa é a obtenção da felicidade naquilo que fazemos e nenhum método é universal ou único.

Mas porque não são iguais nem nos processos de obtenção nem nos resultados materiais, identifiquem-se umas e outras imagens e fotografias.

Até porque entre imagens fotográficas e fotografias (com “F” ou com “Ph”) também há diferenças. Mas isso são outros contos!


By me

quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

Sapos




Tenho em casa um montão de coisas inúteis e estranhas. Algumas por estrear em frente da minha objectiva. Foi o caso.

Numa dessas caixas fui encontrar uma pequena e bem velha amostra daquilo que terei que engolir daqui a por pouco mais de uma semana.

Mas antes isto, fazendo-me ficar com o estômago aos saltinhos, que a alternativa, que me provocaria diarreia por uns cinco anos.

 

Pentax K1 mkII, SMC Pentax-M macro 100 1:4


By me

Éticas




Foi talvez há um pouco mais de quarenta anos, não posso precisar.

Fui contratado por uma agência para fazer as fotografias de uma campanha publicitária de uma fábrica de camisas. Um trabalho de envergadura, com produção complexa, que envolvia fotografar modelos em locais alugados, o produto acabado em lojas e a fábrica em laboração.

Fotografado em formato 9x12, com uma câmara Linhof que havia comprado pouco tempo antes.

Quando o trabalho me chegou às mãos já quase tudo estava combinado entre o produtor e o cliente, ficando a meu cargo as questões técnicas e estéticas, e pouco de publicidade ou comunicação.

O trabalho correu mais ou menos bem, com alguns episódios caricatos e algumas falhas da minha parte, mas que fui resolvendo como podia. E eu era um bocado inexperiente.

O último dia de produção era na fábrica. A mais complicada em termos de luz, considerando a enormidade do espaço: uma nave grande, cheia de gente a costurar, com uma mistura de luz natural entrada pelas janelas e telhado e luz fluorescente vinda do tecto. Um pesadelo, se considerarmos que o trabalho era a cores e não havia photoshop para correcções posteriores.

Enquanto o produtor e o cliente ficavam à conversa, eu passeei-me pelo espaço, tentado senti-lo: máquinas, pessoas, luz, acções…

E apercebi-me de sorrisos constrangidos das senhoras que iam costurando ou cortando as peças de tecido. Fui metendo conversa com elas.

Fiquei sabendo que tinham sido avisadas da nossa vinda, que haveriam de vir com uma bata lavada e penteadas para as fotografias. Mas bastantes, algumas com idade para serem minhas avós, não queriam ser fotografadas. Ou por timidez, ou porque não gostavam da forma como ali eram tratadas, ou tão simplesmente porque não gostavam de fotografias. Sempre em tom baixo de conversa, não fosse serem ouvidas.

Eu era ainda puto, a experiência reduzida e o trabalho poderia lançar-me para outros voos. Mas aquilo foi-me batendo forte. Muito forte! Eu iria fotografar gente que não queria ser fotografada mas que era obrigada a isso pelo patrão. Não gostei. Nem um nico!

Regressei para junto do grupo que me aguardava: O dono da fábrica, a sua secretária, o produtor e o Jorge F., o meu assistente, inigualável no seu desempenho, que me entendia e me completava nas tarefas como nenhum outro com quem trabalhei. E disse-lhes que o trabalho não podia ser feito como combinado.

Ficaram a olhar para mim com ar espantado. E expliquei com argumentos técnicos e estéticos não iriam ser possível fazer boas imagens com a presença humana, já que ficariam tremidas ou com cores estranhas e que a solução seria fotografar a fábrica e a maquinaria por pedaços em vez de por inteiro e sem a presença das operárias.

A discussão foi renhida, entre mim, o dono da fábrica e o produtor. De parte, o Jorge, junto da tralha entretanto já descarregada, olhava para mim e sorria discretamente. Disse-me, mais tarde, que havia percebido o que eu queria com aquilo.

Acabei por ganhar a batalha. Afinal, mesmo sendo puto, eu era o “expert” na coisa e aquilo que propunha não iria alterar em muito o conjunto do projecto inicial. E, depois do almoço, a produção parou por algumas, não muitas, horas.

As imagens foram feitas, com as máquinas bonitas, brilhantes e eficientes, com peças a meio do tratamento tanto de corte como de costura ou dobragem e embalamento. Mas sem ninguém contrariado nelas. Nem com sorrisos contristados nem com mãos calejadas ou com cicatrizes.

Quando, no final dos trabalhos, estávamos a arrumar a tralha e as operárias regressaram às suas máquinas, os sorrisos de algumas pagaram muito bem pago o só ter feito mais um trabalho, já agendado, para este produtor.

Ainda hoje as recordo.

 

 

Nota extra: A fotografia não é da época. Os originais, em diapositivo 4x5, foram entregues ao cliente na altura. Esta foi feita ali, a correr, para acompanhar o texto.

 

Pentax K7, Tamron SP Adaptall2 90 1:2,5


By me

Dos invisíveis




De algum modo todos nós acompanhamos a tempestade que atravessou o país. Quer fosse porque se a viveu, quer fosse porque a comunicação dela falou.

Casas destelhadas, gente que morreu, negócios, indústrias, colheitas, áreas inundadas, falência de serviços e bens básicos... de quase tudo se falou e mostrou.

O que ficou de fora das pantalhas e letras, gordas ou magras, foi o que aconteceu aos vivem nos cartões ou frageis tendas.

Esses, os invisíveis que mais não são que os incómodos porque nos abordam à porta do supermercado ou nas esplanadas, a quem se vira a cara e que nem uma negação de ajuda têm direito porque lhes damos as costas, de quem nos desviamos porque o seu aspecto incomoda o nosso sentido de ordem pequeno-burguês, esses invisíveis não eleitores, não cidadãos, não pessoas, sem rosto nem voz, não tiveram nem cinco segundos ou duas linhas na comunicação social.

Que mais grave é o voar do telhado da indústria que a frágil tenda; que mal falam para as câmaras, que vergonha têm de terem perdido os cartões ou de terem os finos cobertores encharcados. E que sabem que as moedinhas à porta do supermercado vão rarear até os telhados se refazerem e as luzes voltarem a iluminar o sofá onde se acede às redes sociais.

Dos fracos não reza a histórias. Nem os noticiários.

 

Pentax K7, Sigma 70-300


y me

quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

Final feliz




É um erro comum: confundir “ser fã de” com “ser fanático por”.

No meu caso e fotograficamente falando, pese embora ser fã da marca Pentax, não sou fanático. Nem exclusivo. Este é um exemplo disso.

Eu tinha vinte e qualquer coisa e, já nem sei porque motivo, adquiri uma Rolleiflex SL35. Talvez porque eu quereria ter uma segunda câmara para alternar entre preto e branco e côr. Talvez porque o nome da marca fosse sonante (então e agora), e garantidamente porque terá sido muito barato.

Recordo ter ido para a zona velha da cidade com um amigo e compincha fotográfico para fazer o rolo de estreia. E de ter, com ela, feito fotografias de um aparatoso e grave acidente de moto.

E pouco mais recordo dela. Uns dias depois, em chegando a casa constato que esta tinha sido assaltada e que a câmara tinha sido levada. Por sorte, algo deve ter assustado os ladrões que não passaram do átrio de entrada, ou teriam levado, com toda a facilidade, a mala com o restante material (este Pentax). Foi um amargo de boca de sempre tive.

Há não muito tempo vejo este exemplar na montra de uma loja. Por uma casualidade passei por ali. E até os olhinhos se me saltaram da cara! Seria o fim de um ciclo com dezenas de anos, um regresso ao passado com um final feliz.

Ainda resisti, ponderando durante uns dias. Que do ponto de vista orçamental não me convinha. Mas a gula venceu e fui busca-la. Mas ainda tive que esperar uns dias, que a primeira abordagem logo ali na loja demonstrou não estar o fotómetro calibrado. Mas quando lá voltei por ela, depois de afinada, saí da loja qual puto feliz com brinquedo há muito desejado.

Está ali para as curvas e para os rolos, assim eu saiba tirar partido de uma velharia do início dos anos 70.

 

Pentax K1 mkII, SMC Pentax-M macro 100 1:4

 

By me

terça-feira, 27 de janeiro de 2026

Mais um vez




Dizer “foi morto” é quase a mesma coisa que dizer “foi assassinado” ou “foi abatido”.

O problema põe-se no “quase”!

“Foi morto” é uma expressão neutra, não se sentindo que haja uma atribuição de culpa. É um mero facto.

“Foi assassinado” tem uma carga criminal. Quem assassina é um criminoso e deve ser punido pela lei.

“Foi abatido” aparenta legitimidade, um acto executado seguindo ordens superiores.

Em qualquer dos três casos existe alguém que morreu. Em qualquer dos três casos existe alguém que interveio nessa morte. E existe um jornalista que decide usar uma das três versões para fazer passar a sua opinião sobre o facto, moldando a opinião do públlico.

E nós, os anónimos do público, não queremos saber a opinião do jornalista.

Ide-vos!

.

Este desabafo, que não nada de original, surge na sequênncia das opções jornalísticas usadas por cá sobre os casos de cidadãos norte-americanos mortos por agentes da polícia.

 

Samsung S1060


By me

sábado, 24 de janeiro de 2026

Areia para os olhos




Vamos andando entretidos com as diatribes que nos aparecem lá do outro lado do Atlântico. E com as lutas presidenciais por cá. E as guerras a oriente, europeias ou mediterrânicas. E as horas de espera nos hospitais. E as depressões e tempestades, que mandam fechar estradas e suspender aulas. E os conflitos laborais, públicos ou privados.

E, no meio de tudo isto e o mais que venda jornais ou aberturas de noticiários, outras questões há que, na sombra de todas aquelas, vão sendo noticiadas mas quase que por engano.

Questões que não são urgentes mas que marcarão o futuro quotidiano de muitos milhares de portugueses. Em permanência.

Questões que não são de urgência ou de solvência mas tão só porque apetece à elite dirigente. Questões ideológicas, e à revelia dos programas eleitorais, que vão moldando aos poucos a sociedade sem que esta se possa pronunciar sobre o assunto.

No caso concreto, a eventual mas anunciada privatização das linhas urbanas da CP.

Aquelas linhas que transportam muitos milhares de cidadãos de e para o trabalho, gente que não tem alternativa nesse serviço público e imprescindível.

Porque, e não nos enganemos, a palavra chave desta classe dirigente é “privatizar”. Ideologicamente. Colocar os que menos têm a pagar para os que mais têm, através de serviços que são de todos e que querem só de alguns.

E vão-no fazendo com a discrição que conseguem, entre uma tempestade e uma sala de espera, à sombra de uma qualquer chacina lá longe. Com a cumplicidade dos media. Privados ou não.

Citando Saramago: “... e, já agora, privatize-se também a puta que os pariu a todos.”

 

Nikon Coolpix P7000

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sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

Argumentos




Foi já há uns vinte anos, decorria o meu projecto “Old Fashion” no Jardim da Estrela e fui abordado por duas senhoras catequistas já não sei de que confissão religiosa.

Não costumo ser rude para com estas pessoas. A sua conversa não me interessa por demais e tento afasta-las com a urbanidade que posso e sei. Por vezes recorrendo a estratagemas pouco ortodoxos, mas não rudes.

Desta feita esgotei os que tinha sem sucesso. Eu estava ali “amarrado” à minha câmara montada e elas tinham-me como “vítima” garantida.

A conversa terminou, com vitória para mim, quando lhes apresentei um argumento adequado ao que ali fazia:

“As senhoras prometem a felicidade numa eventual vida após a morte. Da qual não há testemunhos que não a fé. Eu propicio a felicidade, aqui e agora, ao entregar, de borla, fotografias a quem mas pede e provocando sorrisos. Quem, de nós, tem mais sucesso?”

Engoliram em seco, disseram mais uma ou duas coisas e zarparam. Devem ter-me identificado como Belezu encarnado.

Mas o certo é que essa é a minha abordagem.

Podemos e devemos trabalhar para a felicidade futura. Sejam quais forem os conceitos de felicidade e os prazos considerados.

Mas não devemos descurar a felicidade no momento em que vivemos. Não apenas fazendo por ela mas encontrando-a no que somos e temos.

E, principalmente, fazendo com que ela se espalhe, qual epidemia, em redor. Mesmo que em pequenas coisas e por uns instantes.

Como? Depende das circunstâncias, dos envolvidos e das suas capacidades.

Se a vida fosse uma fórmula resolvida…

 

Pentax K100D, Sigma 70-300


By me